De 2 players para 60+: a revolução da adquirência brasileira
Em 2010, duas adquirentes (Cielo e Rede) controlavam quase 100% do mercado de cartões no Brasil. Hoje, são mais de 60 adquirentes e 380 subadquirentes operando — e a transformação está longe de terminar.
O mercado de adquirência brasileiro está passando por uma das maiores transformações da sua história, impulsionada por regulação, tecnologia e novos modelos de negócio. Neste post, reunimos as principais tendências que vão moldar o futuro do setor.
1. Acquiring as a Service (AaaS)
O modelo de Aquiring como Serviço permite que qualquer empresa — de fintechs a grandes varejistas — ofereça processamento de pagamentos com sua própria marca, sem precisar se tornar uma adquirente licenciada.
Empresas como Dock (que atende 60+ adquirentes e 380+ subadquirentes), Barte (plataforma white-label) e a própria Fiserv (via Carrier BIN) fornecem toda a infraestrutura: licenciamento, certificação, antifraude, liquidação e backoffice.
A tendência é que o AaaS se torne o padrão para novos entrantes. Em vez de construir uma adquirente do zero (o que leva anos e exige milhões em investimento), a empresa contrata a infraestrutura pronta e foca no que sabe fazer melhor: atender o lojista.
2. Embeddded Finance: o pagamento invisível
O mercado de embedded finance (finanças embarcadas) no Brasil deve crescer de US$ 12,93 bilhões (2024) para US$ 18,33 bilhões até 2030. O varejo será responsável por metade desse mercado.
Na prática, o pagamento está cada vez mais invisível: acontece dentro da jornada do usuário sem que ele precise pegar a carteira. Exemplos:
- Pagamento automático em pedágios e estacionamentos
- Pagamento por aproximação no transporte público
- Cobrança automática em apps de delivery e mobilidade (iFood, Uber, 99)
- IoT: carros conectados que pagam combustível e pedágio automaticamente
3. Inteligência Artificial nos pagamentos
A IA está revolucionando os pagamentos em várias frentes:
- Mastercard Agent Pay: lançado no Brasil em 2026, permite que agentes de IA façam compras autônomas usando tokens especializados. Parceiros incluem Getnet, MagaluPay e Checkout.com
- Visa Intelligent Commerce: em fase piloto no Brasil desde o fim de 2026, em parceria com OpenAI, Perplexity, Microsoft e Anthropic
- Antifraude com IA: algoritmos de machine learning analisam milhares de variáveis em milissegundos para detectar fraudes — contribuindo para a queda de 47% no índice de fraudes em 3 anos
4. Regulação: BCB #522 e o novo marco
A Resolução BCB nº 522, em vigor desde maio de 2026, é a mudança regulatória mais importante para o setor desde a abertura do mercado:
- Bandeiras como garantidoras finais: Visa, Mastercard e Elo são responsáveis por assegurar o pagamento de todas as transações ao recebedor, inclusive com recursos próprios
- Subadquirentes obrigados a participar da liquidação centralizada (SLC), independentemente do volume
- Chargeback limitado a 180 dias a partir da autorização. Após esse prazo, a responsabilidade é da bandeira
- Vedação de chargeback por falência do recebedor
A regulação está elevando a barra para pequenos subadquirentes, que precisarão de mais capital e governança. O resultado esperado é uma consolidação do mercado nos próximos anos.
5. Pix Automático e Pix por Aproximação
O Pix Automático, lançado em junho de 2025, já está mudando o mercado de pagamentos recorrentes. Ele elimina a necessidade de convênios entre empresas e bancos (ao contrário do débito automático tradicional) e está disponível em todos os bancos participantes do Pix.
O Pix por Aproximação (NFC) está ganhando escala em 2026 e compete diretamente com os cartões no PDV físico. A liquidação é imediata e as taxas são muito inferiores às do cartão de crédito.
No primeiro semestre de 2026, o Pix se consolidou como o meio de pagamento mais usado no e-commerce (42% das transações, superando o cartão de crédito pela primeira vez) e representa 54,7% de todas as transações do sistema financeiro brasileiro.
6. DREX: a moeda digital do BC
O DREX (real digital) está em fase de piloto no Banco Central. As regras de interoperabilidade entre Pix e DREX estão sendo definidas, e os contratos inteligentes (smart contracts) devem permitir a automação de pagamentos combinada com transferência de ativos — como a compra de um veículo em que o pagamento e a transferência de propriedade ocorrem simultaneamente.
O DREX tem potencial para transformar profundamente o sistema de pagamentos brasileiro, especialmente em operações de maior complexidade.
7. Consolidacão do mercado
As principais movimentações recentes apontam para um mercado em consolidação:
- Fiserv + Money Money (abril/2025): aquisição para alimentar o Clover Capital
- Pluxee + Ben (2024): Santander vendeu sua startup de benefícios para a Pluxee
- iFood + Alelo (em negociação): se concretizada, cria o maior player de benefícios do Brasil
- PayPal como adquirente (junho/2025): entrou como adquirente full service no Brasil
O BCB também implementou novas regras de capital (julho/2026) baseadas em atividade (não mais por tipo de licença), afetando 1.751 instituições com transição até 2028.
O futuro é ser um hub financeiro
Para o franqueado FourPay, o futuro do credenciamento não é apenas processar cartões. É oferecer um ecossistema completo:
- Maquininha (Bin, Clover, Bin Tap)
- Crédito (Clover Capital, antecipação)
- Benefícios (VR/VA via Bin Tap)
- Gestão (Clover, TEF, SiTef)
- Pix (Hub de Pix)
- Pagamento digital (link de pagamento, checkout online)
A adquirência do futuro não é um terminal — é uma plataforma.