Fraude caiu 47%, mas ainda é um desafio bilionário
O índice de fraudes com cartões no Brasil caiu 47,3% nos últimos três anos, de 17,3 bps (1T22) para 9,1 bps (1T25). Em quantidade, a queda foi de 45,2% — de 61 para 33 eventos fraudulentos a cada 100 mil transações.
Os números mostram que os investimentos em segurança estão funcionando. Mas o setor financeiro ainda perdeu R$ 10,1 bilhões com fraudes em 2024 (+17% sobre 2023, segundo a Febraban), e só no primeiro trimestre de 2026 foram 1,49 milhão de tentativas de fraude de identidade digital no Brasil, uma alta de 36,6% sobre o mesmo período de 2025.
Ou seja: a tecnologia de prevenção avança, mas os criminosos também se modernizam.
Fraude presencial vs fraude online
O comportamento da fraude é muito diferente entre o mundo físico e o digital:
- Fraude presencial (chip + NFC): estabilizou em 1,2 bps. A migração do magnetic stripe para chip e a adoção massiva do contactless reduziram drasticamente a clonagem física de cartões.
- Fraude online (card-not-present): caiu de 54,4 bps para 34,5 bps (-36,5%), mas ainda é o principal vetor de ataques. O ticket médio da fraude online é de R$ 258,74.
No e-commerce, o ticket médio da fraude chega a R$ 917,52 — 62% acima do valor médio de uma compra legítima. Segundo a ClearSale, foram 2,8 milhões de tentativas de fraude no e-commerce em 2024, com potencial de prejuízo de R$ 3 bilhões.
Chargeback: o calcanhar de Aquiles do lojista
O chargeback é o mecanismo pelo qual o portador do cartão contesta uma cobrança junto ao banco emissor. Quando o chargeback é procedente, o valor é estornado do lojista — que perde o produto e o dinheiro.
As novas regras do BC (Resolução BCB 522/2025) trouxeram mudanças importantes:
- Janela de 180 dias: a responsabilidade do lojista e da credenciadora fica limitada a 180 dias da data da autorização
- Bandeiras como garantidoras: após 180 dias, a responsabilidade passa para a bandeira (Visa, Mastercard), que deve assegurar o pagamento ao lojista mesmo com recursos próprios
- Falência do recebedor não gera chargeback: desacordos comerciais por falência ou insolvência do lojista não podem ser contestados via chargeback
O STJ também trouxe um precedente importante (AREsp 2.455.757-SP, abril de 2026): o lojista não pode ser responsabilizado exclusivamente por chargeback em toda e qualquer circunstância. A responsabilização exige descumprimento contratual E contribuição decisiva para a fraude.
Além disso, a Visa implementou em abril de 2026 o VAMP (Visa Acquirer Monitoring Program), que reduziu o limiar de chargeback + fraude de 2,2% para 1,5%. Acima disso, a multa é de US$ 8 a US$ 10 por transação.
As ferramentas da Fiserv contra fraudes
A Fiserv (Bin/Clover) oferece um conjunto completo de soluções de prevenção a fraudes para seus lojistas e franqueados:
- Fraud Detect: plataforma antifraude multi-adquirente com IA e machine learning, analisando mais de 4.000 variáveis e utilizando device fingerprint para identificar transações suspeitas
- Carat: solução antifraude em tempo real com análise pré e pós-autorização, com equipe especializada para análise de pedidos suspeitos
- Fraud Notification Service: API REST que notifica a instituição de análise de risco sobre fraudes identificadas após a transação aprovada
- App Bin Gestão: acompanhamento de contestações e chargeback em tempo real pela palma da mão
- Bin Conexão / Bin Alerta: notificações ao lojista por SMS e e-mail sobre transações e chargebacks
Segundo Ronaldo Trigo, Diretor de Prevenção à Fraude, Crédito e Risco na Fiserv: "Evoluímos muito na detecção de fraudes em transações com cartão em 2023, com 50% menos perdas que no ano passado."
3D Secure: o escudo do e-commerce
O 3D Secure 2.2 é a principal ferramenta de proteção para vendas online. Quando uma transação é autenticada via 3DS (códigos ECI 05 na Visa ou ECI 02 na Mastercard), o ônus do chargeback fraudulento transfere-se para o banco emissor — o lojista fica protegido.
Desde julho de 2026, a Mastercard exige 4 campos obrigatórios no 3DS: nome do titular, endereço de cobrança, método de contato e identificador do dispositivo. Quem não enviar todos os campos pode perder o liability shift.
O ideal é configurar o 3DS no modo frictionless para 80% a 90% das transações (sem impacto na conversão) e usar o challenge (autenticação explícita) apenas nos casos de alto risco. O impacto agregado na conversão fica abaixo de 2%.
Principais tipos de golpe
Segundo a Serasa Experian, os golpes mais comuns no Brasil são:
- Engenharia social: anúncios falsos, phishing, boletos adulterados, golpes via QR Code, falsas centrais bancárias
- Furto de identidade: roubo de contas, deepfakes, documentos falsificados, contas laranja
- Fraude como serviço (FaaS): grupos organizados (~2.000 identificados, +139%) que vendem kits e scripts prontos para aplicar golpes
- Golpe do falso motoboy: criminoso se passa por funcionário do banco, coleta dados e envia motoboy para buscar o cartão
O setor de meios de pagamento lidera as tentativas: 43,1% de todas as 1,49 milhão de tentativas de fraude de identidade no 1T26 foram nessa vertical.
Dicas para o lojista se proteger
- Use 3D Secure em todas as vendas online — é a melhor proteção contra chargeback fraudulento
- Desconfie de vendas muito acima do ticket médio com tentativas de pagamento em sequência
- Habilite notificações (Bin Conexão, Bin Alerta) para monitorar transações em tempo real
- Verifique dados do comprador em vendas de alto valor: nome, CPF, endereço, telefone
- Registre a entrega com comprovante de recebimento e dados do destinatário
- Mantenha contrato e termos de uso claros para evitar desacordos comerciais